Eu
sei que é preconceituoso, arrogante e ridículo da minha parte, mas tenho sempre
uma pequena desilusão quando alguém me responde que não tem um livro preferido.
É ridículo porque eu não tenho um filme preferido ou uma música preferida, e
acredito que sejam indicadores de personalidades tão importantes como o meu
livro preferido, no entanto para mim a
leitura ecoa de uma maneira que nenhum dos outros favoritos se pode comparar.
Para mim não ter um livro preferido é um indicador de que não falamos a mesma
língua.
Com
isto o que quero dizer, é que para mim o livro, da mesma maneira que diz muito
sobre o autor, na minha opinião também diz muito sobre o leitor. Da maneira em
que se relaciona com as suas experiencias ou fala às suas sensibilidades. Por
isso para mim partilhar e falar sobre a sombra do vento é mostrar um pouco de
mim, daí esta conversa toda. E claro, descobrir o livro preferido de alguém é
como espreitar pela fechadura da porta do que é essa pessoa.
A
sombra do vento é um romance passado em Barcelona na primeira metade do século
XX. A linha da narrativa segue Daniel Sempere, o filho do dono de uma livraria,
e conta a história do cemitério dos livros esquecidos, a história de Julian
Carax, um escritor desaparecido e a história da vida em Barcelona. É uma
história de perda e de amor, é uma história que nem sempre acaba bem, é uma
história que é complicada. Não é uma história feliz, não é triste, ou pelo
menos não totalmente, mas não é feliz. É
uma história que eu não consigo explicar sem a contar, e eu não a conseguiria
contar tão bem como o autor, portanto acho que é melhor não tentar.
Encontrei
este livro por acaso, estava aborrecida na biblioteca, e fiz aquilo que todos
nos dizem para evitar, julgar um livro pela capa. Verdade seja dita, foi
primeiro pelo nome, depois pela capa, e depois pelo pequeno resumo na
contracapa. Comecei a ler, e voltei no dia a seguir para ler mais um pouco, e
no seguinte, até que o requisitei. Tenho algum orgulho em ter encontrado este
livro assim, é a minha pequena versão de destino. Como se o livro me estivesse
a chamar ou estivesse à minha espera, o que é extremamente adequado à sombra do
vento, como descobrirão se o lerem.
Isto
foi o que me convenceu:
“A
Sombra do Vento é um mistério literário passado na Barcelona da primeira metade do século XX, desde os últimos esplendores do
Modernismo até às trevas do pós-guerra. Um inesquecível relato sobre os
segredos do coração e o feitiço dos livros num crescendo suspense, que se
mantem até à ultima página.”*
É um
livro que me deixa com uma ressaca quando o acabo de ler, quando saio desse
mundo em que estive emergida (sou da opinião que só os bons livros são capazes
de fazer isso). Como disse acho que isso diz mais de mim do que do livro. O meu
livro preferido não é feliz e tem muita desgraça. E pelo que tenho vindo a
reparar é uma coisa recorrente no que diz respeito às histórias que me tocam.
Ora
eu uma vez li, e parafraseio, para além
de estar apaixonada, estar triste dá-nos algo em que pensar, foi uma frase
que passou despercebida da primeira vez que a li, mas que aparentemente não me
esqueci. É a razão que dou a mim própria para as minhas preferências
literárias, que enquanto a felicidade é algo que todos procuramos, é a desgraça
que nos faz pensar.
Marta
Valente
*Zafón, Carlos Ruiz, A Sombra do Vento, publicações dom quixote, Lisboa, 13º edição,
2008